6 obstáculos ao sucesso da amamentação

Fotografia tirada na sessão fotográfica, promovida pela Câmara Municipal de Gaia, no âmbito da Semana Europeia do Aleitamento Materno 2018

Eu sou uma defensora, convicta, da amamentação. Hoje em dia, os benefícios da amamentação, tanto para o bebé, como para a Mãe, são indiscutíveis. Entre eles, por exemplo, o facto de o leite materno ser o único que tem a capacidade de se adaptar às necessidades do bebé, que se modifica ao longo do tempo, tendo em conta o crescimento e estado de saúde do bebé e que, ainda por cima, é gratuito!


Mas, a verdade é que, ao longo do tempo, se foram criando verdadeiros mitos urbanos, que em nada ajudam as Famílias que querem amamentar os seus Filhos. E o sucesso da amamentação vai muito além do núcleo familiar. Há muitos outros intervenientes no processo, que precisam saber mais sobre o assunto, para que se possa falar, de facto, em promoção do aleitamento materno.

A recomendação da Organização Mundial de Saúde é clara: os bebés devem ser amamentados, em exclusivo, durante os 6 primeiros meses de vida e, depois, em conjunto com a diversificação alimentar, pelo menos, até aos 2 anos.

Na minha opinião, o primeiro sinal de apoio ao cumprimento destas recomendações, devia vir do Estado, com licenças que fossem compatíveis: a licença inicial de parentalidade, gozada pela Mãe, deveria ser de 6 meses (como, aliás, era pedido na petição que lancei em 2015) e a licença de aleitamento, sem necessidade de apresentação de qualquer tipo de declaração médica, devia ir até aos 2 anos. Mas, por algum motivo, a licença inicial fica-se nos 4 meses e a de aleitamento limita-se ao primeiro ano de vida (e só quem apresentou atestados, muitas vezes mensais, para prolongar esta licença sabe a pressão que se sente, por parte da entidade empregadora, e, muitas vezes, até dos médicos, para que deixe de se usufruir deste direito...).

Depois, todos os profissionais de saúde, que lidam com Mães e Bebés, deviam ter formação obrigatória que os preparasse para apoiar as Mães que sintam dificuldades na amamentação. Começando por Pediatras e Médicos de Família.

Claro que o caminho para a destruição dos mitos, que têm vindo a ser alimentados nos últimos anos, é longo. E também tenho algum receio que o negócio, cada vez mais explícito, que se vai criando em prol do apoio à amamentação acabe por criar um ruído, totalmente desnecessário, e dê argumentos a quem alimenta os ditos mitos.

Da minha parte, além da minha incursão na política, para batalhar pelo aumento da licença da maternidade, que ainda não dei como terminada, posso também partilhar as dificuldades que senti, nos já 53 meses (acumulados) de amamentação, algumas das quais levaram ao desmame do meu Filho mais velho (com apenas 10 mesinhos).


1. Medo de não ter leite
Acho que este é o primeiro medo de todas as Mães que querem amamentar os seus Filhos, eu incluída. E é um medo que nos é passado por quem está à nossa volta. Há sempre uma amiga da cunhada da filha não sei de quem que não conseguiu amamentar porque não tinha leite.Eu tinha este medo, antes de ter o Miguel, sem dúvida! Do Rodrigo já estava mais confiante, mas ainda assim, ele estava lá... Mas não cedi à compra de coisas, para o caso de não ter leite. Não tinha biberões (exceto um que me ofereceram), nem leites em lata. Tive a sorte de ter um acompanhamento fantástico, no curso de preparação para o parto, que fiz no Hospital onde os dois nasceram (o S. João, no Porto) e onde me deram toda a confiança de que eu precisava.

2. Medo de que o meu leite não alimentasse o bebé (e o "isso agora já não faz nada")
Todas nós também ouvimos histórias de Mães que até tinham leite, mas que não alimentava os bebés. E os bebés, coitadinhos, a passar fome sem ninguém dar por nada. Não tenho conhecimentos científicos suficientes para dizer se isto acontece ou não. Mas tenho a certeza que, se acontecer, é muito menos frequente do que nos querem fazer acreditar. Além disso, há outros sinais que devemos ter atenção, nomeadamente na quantidade de fraldas molhadas por dia. E o leite materno faz sempre alguma coisa, que vai muito além do simples alimento! Mas é verdade que, neste campo, não tenho grande experiência, porque tanto um, como o outro, sempre engordaram muito bem, por isso, os meus receios foram diminuindo ao longo das semanas. Mas o "isso agora já não faz nada" foi um dos contributos para que o meu Filho mais velho só mamasse até aos 10 meses, quando surgiram as primeiras dificuldades e eu fiquei cheia de receio que ele passasse fome por não mamar de manhã... Juntamente com o preconceito de que, a partir do ano, a amamentação já não seria assim tão importante, acabei por achar que seria a recusa dele seria um sinal de que não queria mamar mais... Só depois descobri que muitos bebés passam por fases diferentes e que o desmame não era, afinal, o único desfecho possível...

3. Ultrapassar a dificuldade inicial
Quando cheguei a casa, depois de ter o Miguel, tinha o peito massado. Valeu-me o purelan (creme da medela), as conchas arejadoras, andar com o peito ao ar e colocar sempre um bocadinho de leite nos bicos no fim de cada mamada (e o curso de preparação para o parto, onde me ensinaram tudo isto). Depois eu e o Miguel fomo-nos habituando a isto da amamentação, fomos corrigindo a pega e, num instante, entrámos em velocidade de cruzeiro, sem dores, mas sempre com cuidados atentos. Do Rodrigo já tinha mais experiência e o início foi ainda mais tranquilo. Nesta fase, é importante saber onde procurar ajuda, se precisarem! E não, a resposta não é sempre introduzir leite em lata (antes pelo contrário!)

4. Desinteresse do bebé/criança
Foi aqui que eu e o Miguel nos perdemos! É normal, quando os bebés são maiorzinhos parecer que eles já não querem mamar. Quando isso aconteceu, com o Miguel, eu entrei em pânico! Uma mistura de medo de que ele passasse fome, com o preconceito de que o leite materno já não seria assim tão importante, com uma pitada de um "se calhar ele está a dizer-me que não quer mais mamar". Hoje sei que são fases. Que devemos respeitar e não tentar impôr (até para não acontecer o que nos aconteceu a seguir...). Claro que depende sempre da idade e da alimentação complementar, mas o importante é não entrar em pânico. Com o Rodrigo já tinha esta serenidade e ultrapassámos alguns momentos de desinteresse, que terminaram sempre com uma retoma da nossa rotina. Acredito que, se os bebés forem mais pequenos, ou ainda estiverem a ser amamentados em exclusivo, os cuidados possam ter que ser outros. Mas, no nosso caso, depois da aprendizagem anterior, sempre ultrapassámos estes momentos, antes dos dois anos, com a oferta, sem insistência. (Digo antes dos dois anos, porque depois, é normal que a criança vá mamando menos e faz parte do processo natural de desmame...)

5. Mordidelas 
Foi esta dificuldade que, da primeira vez, eu não consegui ultrapassar! Aliado ao desinteresse (que agora sei, seria passageiro) e à minha insistência, o Miguel começou a morder-me! E eu não consegui que ele parasse, por isso, parei eu 😢. Quando foi a vez do Rodrigo, que também passou pela fase de desinteresse e mordidelas, eu já sabia que podia ser temporário. Então aprendi a segurá-lo de forma a que não me pudesse morder (virado para mim, com a cabeça firmemente encostada ao peito e tirá-lo assim que parava de mamar). Ultrapassámos essa fase, e continuámos o nosso percurso, que ainda se estende até hoje (3 anos e 7 meses).

6. Maus conselhos de profissionais de saúde
Este é o obstáculo que mais me entristece! Porque são eles que têm obrigação de nos orientar, de se atualizar constantemente. E também são os seus conselhos que são vistos uma verdade quase indiscutível. Para quem o que o médico diz não é, necessariamente, uma verdade absoluta, há a questão da perda de confiança, que muitas vezes leva a questionar os seus conselhos, mesmo que sejam os mais acertados... Felizmente, este nunca foi o meu caso! Nem o nosso pediatra, nem a nossa médica de Família nunca me deram maus conselhos, ou indicações e sempre apoiaram o nosso percurso da amamentação. E mesmo outros médicos, e profissionais de saúde, com quem me cruzei em urgências ou exames médicos, nunca tive razão de queixa. Mas oiço cada caso, que, mesmo não tendo sido o meu caso, tinha que fazer esta referência, para deixar o alerta!


E é isto, que "da ótica do utilizador" 😉, posso partilhar convosco. Espero que possa ser útil para quem esteja, neste momento, a passar por alguma destas dificuldades. Fica a faltar falar do período em que tive de extrair leite para o espessar e dar ao Rodrigo, quando ele tinha apenas 2 mesinhos, mas isso fica para outro dia...






Mas, afinal, ainda sai leite?
Quando ainda amamentamos e temos uma consulta com um novo médico...
Até quando me deixam mamar?, por Dra. Graça Gonçalves
Amamentar Enquanto os Dois Quiserem, em ebook



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